O Parque (aquele conto prometido!!!)

       
 ‘A tranqüilidade da noite é algo perturbadoramente belo. ’ Era o que eu pensava enquanto caminhava pelo parque. As estrelas e a lua cheia a pouco haviam se mostrado, mesmo assim não havia movimento de pessoas. Como fosse alta madrugada o som do vento nas altas copas e dos meus passos era tudo o que se ouvia.
         Encontrei um banco oculto pela sombra de um imenso tronco de árvore e lá me sentei. Continuei a admirar a noite. Não conseguia pensar em mais nada além do frio que tomava conta do meu corpo, das trevas que me envolviam e das canções do vento em meus ouvidos.
         Por um momento pensei ter sentido um toque gelado em meu ombro esquerdo e instantaneamente um arrepio sinistro me percorreu o corpo. Não havia mais ninguém no parque. Abracei meus joelhos e fiquei encolhida no banco, tanto para amenizar o frio quanto para me convencer de que aquele toque havia sido apenas imaginação.
         “Não há mais ninguém aqui. Não há mais ninguém aqui.” Repetia para mim mesma. Estava assustada. Nem me lembrava no motivo de ter ido àquele parque. Queria ir embora, mas para onde? Não me lembrava do caminho até ali e nem de onde tinha vindo. Tudo que tinha comigo era um vestido preto com mangas de renda que batia nos joelhos e um par de sapatilhas cor-de-rosa.
         “Não há mais ninguém aqui.” continuava a repetir cada vez mais nervosa.
         “Não há mais ninguém visível aqui...” essas palavras de repente tomaram conta da minha mente. Tentei ao máximo pensar em outra coisa, sem sucesso. A frase se repetia sem cessar, eu já suava frio quando percebi que ela não era fruto de uma imaginação amedrontada. Ela era sussurrada por alguém bem perto de mim, bem ao pé do meu ouvido e que, como se tivesse notado minha reação, novamente me tocou. Dessa vez me envolvendo nos braços gélidos.
         Muito assustada por não saber o que era que me abraçava eu permaneci estática. Teria gritado, porém minha boca parecia bloqueada por alguma coisa. Era algo muito macio.
         Aos poucos, como se minha visão tivesse sido antes ocultada por uma névoa, eu começava a enxergar o que estava junto de mim. Notei primeiramente um par de lindos olhos amarelos destacados pela sombra dos cabelos negros. Depois, afastando-me um pouco, notei a pele extremamente pálida mesmo sob a sombra daquela grande árvore. O nariz e a boca eram perfeitamente desenhados no rosto fino.
         “Agora mais alguém visível aqui. Pelo menos para você.” Disse o rapaz que surgira, ainda me abraçando. Só então percebi, pela proximidade dele, que o que havia antes bloqueado a saída da minha voz eram seus lábios. Ainda sentia como se estivessem me tocando, pois meus lábios estavam frios como se os dele tivessem roubado-lhes o calor.
         Claro que aquilo tudo era no mínimo esquisito. O senso comum diria para eu me afastar dele e sair correndo, porém o tal ‘senso comum’ já havia me deixado há algum tempo, mais precisamente no momento em que fitei aqueles olhos sedutores. Eu já havia caído no seu encanto.
         Ele continuava com os braços em volta de mim, agora de maneira mais suave, parecia não temer que eu tentasse fugir dele. Eu lentamente começava a tocar-lhe os fortes braços descobertos com meus dedos tímidos.
         Reparei então nas roupas que ele usava. Calça de alfaiataria e uma camisa de botões com as mangas e as bordas rasgadas. Ele trajava negro assim como eu e a noite.
         Ele faz menção de me beijar novamente tocando meus lábios com os dedos e em seguida me puxando pela cintura. Eu por minha vez levara instintivamente minhas mãos até seu rosto para aproximá-lo do meu e ali iniciamos um beijo suave. Tão suave quanto à brisa que soprava naquele momento.
         “Quem é você?” perguntei com a voz baixa. Ele respondeu ao pé do meu ouvido “Você pode me chamar de ‘seu’...” com uma voz que parecia querer me possuir ali mesmo. Ele prosseguiu beijando meu pescoço ao mesmo tempo em que me pressionava contra seu corpo e, enquanto as carícias se seguiam, eu tinha cada vez mais certeza de que não era só impressão minha sentir que ele roubava meu calor. A cada beijo, e não só pelos beijos, mas também por estar com o corpo colado ao dele, percebia a diferença entre nossas temperaturas diminuir. Eu ficava cada vez mais fria, ele permanecia frio. E lá estávamos: dois corpos gélidos envolvidos num beijo que se aprofundava conforme o vento ficava mais forte. Um beijo que seria considerado ‘quente’, mas não. Tudo que ali havia era noite, vento, frio, sombras e dois corpos pálidos e frios como mármore vestidos com o manto da noite.
         Tirando os lábios dos meus por um momento ele me pergunta: “Você quer ser minha?” com a mesma voz sedutora de antes e eu, com um fiapo de voz respondi que “sim”. Porque ‘sim’? Porque ele me envolvera daquela maneira? Como pude me deixar conquistar por alguém que acabei de conhecer? E alguém que simplesmente surgiu na minha frente! Alguém que era gelado como um morto... Um morto? Ah, então era isso.
         “Quem é você?” perguntei mais uma vez. Ele então me abraçou bem forte. Desta vez parecia não querer me dar rota de fuga.
         “Você pode me chamar de ‘seu’, mas também pode me chamar de ‘noite’, de ‘frio’, de ‘sombra’, de ‘vento’, do que quiser. Só... continua comigo...”. Sua voz saiu quase como uma súplica. Eu não tinha mesmo para onde ir. Não tinha ninguém comigo, somente ele. Não encontrei motivos para recusar, então me entreguei. Entreguei-me à noite, ao frio, ao vento, senti meu corpo se fundir ao dele lentamente. Seu corpo gelado já não me era incomodo, era apenas curioso o fato de eu não sentir mais meu próprio corpo como sendo ‘meu’.
         Enquanto ‘perdia’ a mim mesma pensava nas pessoas que passariam pelo parque na manhã seguinte e encontrariam uma jovem de preto deitada num banco, com a pele pálida como o luar, sem o rubor da vida em sua face. Julgá-la-iam apenas como uma vítima do frio quando na verdade ela havia sido seduzida pelo beijo da morte e envolvida pelos braços da noite. 

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